A Origem do Pó-de-arroz

Tricolores,

Ao longo de nossa história, a torcida tricolor tem dado sucessivas demonstrações de criatividade. Embora bem maior do que teimam em registrar pesquisas cujas metodologias nunca são muito claras, com certeza não somos os mais numerosos. Nem poderíamos. Não é simples formar um tricolor. Alguns de nós somos fruto de um longo processo de depuração, coisa de gerações; outros, são o produto de um esforço concentrado, que exigiu firmeza de princípios e convicções inabaláveis. Em suma, não cabe afobação ou improviso. Trata-se de um grupo com características diferenciadas, cuja sensibilidade para apoiar o time nos momentos difíceis – quando outras torcidas teriam aprofundado a crise -, a capacidade de reverter episódios inicialmente negativos, são demonstrações da grandeza da nossa gente.

Esse consenso surgiu aqui na minha turma durante a conversa sobre a manipulação de um episódio menor e de um rótulo inicialmente pejorativo que nos impuseram, e que nossa torcida, em sua vasta sabedoria, soube reverter por completo. Como perceberam, me refiro à origem do pó-de-arroz. Muitos já ouviram a história, mas talvez não conheçam os detalhes. Em 1914, o América se achava em grave crise, que o levou a perder dezenas de sócios, conselheiros e jogadores. Cerca de doze deles tomaram o caminho do Fluminense, entre os quais, os irmãos Carneiro de Mendonça: Fábio, Luiz Henrique e o grande Marcos! Nesse grupo, achava-se também Carlos Alberto Fonseca Neto.

Carlos Alberto não era negro, mas um mulato claro, o primeiro a vestir a camisa tricolor. É simplório e equivocado se dizer que, “naquele tempo, havia racismo no Fluminense”, quando o problema era muito mais grave. O odioso preconceito de cor permeava toda a sociedade brasileira, de longa tradição escravagista, e se expressava, por exemplo, no comportamento de todos os clubes com sede na Zona Sul do Rio de Janeiro. Todos, sem excessão. Intimidado por esse ambiente hostil, muito antes de chegar ao Fluminense, Carlos Alberto adotava a prática de passar pó-de-arroz no rosto, antes de entrar em campo.

Em São Paulo, o famoso Friedenreich – El Tigre, como era chamado -, um mulato bem claro, de olhos verdes, tentava esconder sua etnia alisando o cabelo. Primeiro untava-o com brilhantina; depois, com o pente, puxava-o para trás e, a seguir, amarrava a cabeça com uma toalha, numa espécie de turbante. Toda essa operação precisava ser realizada durante a preliminar, pouco antes do jogo começar ou o resultado se perderia antes do final da partida. Muitas vezes, finalizando seus preparativos, Friedenreich atrasava a entrada do time em campo e, quase sempre, era o último jogador a pisar o gramado. O que parecia uma jogada promocional, era apenas o resultado de suas manobras capilares.

Mas e Carlos Alberto? Se ele já usava pó-de-arroz como jogador do América, por que não havia repercussão? Por que os americanos não foram chamados de “pó-de-arroz”? Cabe recordar dois aspectos: primeiro, ele era um reserva; segundo, com todo o respeito, jogava no América. Era quase um anônimo, portanto. Tão logo passou a jogar – algumas vezes – no time principal do Fluminense, o antigo hábito ganhou súbita e incontrolável notoriedade. Surgiram versões de que nossa Diretoria teria imposto essa condição para que Carlos Alberto vestisse a camisa tricolor, e as torcidas adversárias passaram a nos chamar de “pó-de-arroz”. Toda vez que isso ocorria, ofendiam-se e brigavam tricolores de todas as etnias e condições sociais, ombro-a-ombro, sem distinção.

Eis a verdade: nunca houve qualquer interferência do clube ou ação alheia à vontade do próprio jogador, que já cultivava a exótica maquiagem antes de chegar à rua Álvaro Chaves. Além disso, era uma costumeira provocação entre as maiores torcidas da época, se chamar de “pó-disso” ou “pó-daquilo”: os rubro-negros eram “pó-de-mico”; os vascaínos, “pó-da-pérsia”, um remédio para vermes muito popular no início do século XX. E quando alguém queria ofender um tricolor, vinha logo com um “pó-de-arroz”. Pensando melhor, pó-de-arroz era coisa fina, custava caro, cheirava bem, e a nossa torcida teve mérito de dar a volta por cima e incorporar o simpático e pacífico item à tradição tricolor.

10 Responses to A Origem do Pó-de-arroz

  1. J.T. de Carvalho says:

    Boa! Adorei saber da verdadeira história! Vamos Pó-de-arroz! Vamos Fluzão!
    # postado por Cauan : 8 de outubro de 2010 15:47

    • J.T. de Carvalho says:

      Obrigado pelo comentário, Cauan.
      A imprensa anti-tricolor repete tantas vezes a mesma mentira que, com o tempo, ela assume o lugar da verdade.
      A torcida tricolor é uma elite. A elite de Cartola, de Noca da Portela e de tantos outros negros e mulatos que sempre se distinguiram pela verdadeira elegância. A elegância dos princípios e das atitudes.
      Vamos Fluzão!
      JT
      # postado por JT : 8 de outubro de 2010 21:32

  2. J.T. de Carvalho says:

    hehehe
    irado esse texto
    irei pegar e divulgar
    tem problema fazer isso?
    muito bom para esclarecer as pessoas.
    principalmente pessoas ignorantes de outros times do Rio que querem dizer que o Fluminense é um clube racista, preconceituoso e outros xingamentos como os tricolores estão acostumados a sofrer por incomodar os outros com a nobreza típica de um torcedor do Fluminense.
    # postado por Otavio rezende : 8 de outubro de 2010 17:10

  3. J.T. de Carvalho says:

    interessante!!
    # postado por Marcos : 8 de outubro de 2010 17:56

  4. J.T. de Carvalho says:

    Parabéns J.T. de Carvalho, tal história enriqueceu os saberes dos Tricolores. Pó-de-arroz indicava prestígio, até pq a fidalguia carioca era Fluminense, mostrando assim o poderio de nosso time.
    Jefferson Cardoso.
    # postado por Anônimo : 8 de outubro de 2010 23:40

    • J.T. de Carvalho says:

      Tricolores, obrigado pelos comentários.
      Os que desejarem podem divulgar todos esses textos à vontade.
      Além de também divulgarem o portal NETFLU, estarão contribuindo para o principal objetivo desse blog: ampliar o conhecimento dos tricolores sobre a verdadeira história do nosso clube.
      Ao reproduzir nossas conversas, meus amigos e eu só temos esse desejo: demonstrar como é justo o orgulho de ser tricolor.
      Abraços a todos.
      Vamos Fluzão!
      JT
      # postado por JT : 10 de outubro de 2010 10:34

  5. J.T. de Carvalho says:

    VOLTEI!!!
    Estive ausente “do grupo” por diversas razões pessoais mas quão maravilhado fico em retornar e encontrar textos como o de “Samarone”, da “Lógica” e este esclarecedor sobre o “pó-de-arroz”!
    Espero não ficar tanto tempo afastado novamente!rs
    E assim como nossos jogadores lesionados, volto pra ficar e ajudar na arrancada rumo ao titulo deste ano, que não nos escapará!!! Tudo o que acontece com o tricolor tem uma razão, pra dar aquele suspense…
    Vai faltar pó-de-arroz no mercado!!!
    Saudações Tricolores do Céu e da Terra!!!
    Douglas
    # postado por Anônimo : 12 de outubro de 2010 11:07

    • J.T. de Carvalho says:

      Olá, Douglas. Bem vindo de volta.
      Com o seu reforço e mais o Diguinho e o Emerson, vamos arrancar para o título.
      Vamos Fluzão!
      JT
      # postado por JT : 12 de outubro de 2010 19:10

  6. J.T. de Carvalho says:

    Boa tarde blogueiro.
    Bela parte da nossa história. Ainda há uma distância entre o clube e a torcida. Realmente, a fidalguia e a origem elitista da agremiação social teve que ceder a popularidade do esporte que carrega em seu nome e de seus praticantes, cuja formação deixou, aos poucos, de ser da vizinhança rica da sede social.
    Isto mostra que ainda são necessários alguns ajustes para que se chegue a um equilíbrio entre a torcida e o clube. Um incorporou aspectos do outro, mas, no momento, acho que alguns dirigentes “aprenderam” melhor a prática encontrada em meio popular, que vem merecendo questionamentos da torcida quanto ao sucesso para o clube.
    Parabéns pelo texto, mais uma vez.
    J. Cesar
    # postado por Anônimo : 13 de outubro de 2010 15:40

    • J.T. de Carvalho says:

      Caro Julio Cesar, seus comentários sempre enriquecem e ampliam os temas sugeridos no post.
      Saudações Tricolores,
      J.T.
      # postado por JT : 13 de outubro de 2010 16:08

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *

*

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>