Comunicado

Tricolores,

Há quase 25 anos, cheguei a um verdadeiro paraíso. Convencí-me desse privilégio ao ser gentilmente acolhido em uma roda de tricolores ilustres. De início, me espantei com a possibilidade de mandar mensagens, orientações etc. A explicação geral me foi dada pela lembrança da célebre sentença rodrigueana, sobre a eternidade dos deveres clubísticos.

Como notaram, aprendi a ditar uma síntese das conversas com meus amigos, um emaranhado de lembranças sobre as glórias e os heróis da Mitologia Tricolor. Sem fontes de consulta, metodologia ou qualquer aspiração histórica, temos a nos inspirar um traço comum: por décadas, atravessamos um mesmo sonho - a paixão pelo Fluminense Football Club.

Por esses dias, o redator de meus ditados comunicou se ter acidentado. Não poderá escrever por algumas semanas – ou meses, quem sabe? Dei a notícia aos amigos daqui e, agora, a transmito a vocês. Talvez, um descanso de nossas velhas histórias lhes seja até conveniente mas, a nós, muito custa passar sem suas visitas ao blog e sem a gentileza dos comentários.

Paciência. Se o chefe aqui o permitir e o NETFLU concordar, alguma hora estaremos de volta.
Saudações Tricolores,
J.T.

Postado em 1. Mensagem do J.T. | 26 comentários

Farra de Ingressos

Tricolores,

O Stanislaw deu uma gargalhada e ironizou: “enquanto não se revogar a lei da oferta e da procura, sempre haverá conflito na disputa pelas mercadorias mais valorizadas”. A discussão do grupo se referia às provações bíblicas por que tem passado nossa torcida, ao tentar apoiar o time em jogos decisivos. Só as severas páginas do Velho Testamento terão exemplos tão expressivos e numerosos de pragas, doenças, catástrofes, sacrifícios, demonstrações de fé etc. No momento em que se inicia um novo modelo para a venda dos nossos ingressos, não se espera ser possível provê-los em quantidade e custo acessível a todos, mas há um objetivo fundamental e obrigatório: o respeito à torcida tricolor.

A questão dos ingressos nos fez lembrar um episódio ocorrido em 1910, quando o Fluminense recebeu no Estádio das Laranjeiras a ilustre visita do Corinthians – o inglês, o legítimo –, que fez seu jogo de estréia contra uma seleção carioca. A presença de um representante dos criadores do futebol moderno em nossa cidade deixou os cariocas curiosíssimos, o que fez a lotação do estádio se esgotar com rapidez. Como sabemos, a família Coelho Netto morava em frente ao clube e Mano – o filho mais velho, então com 11 anos de idade – se distraía a observar a multidão. Decepcionado por não haver mais ingressos à venda, um torcedor lhe propôs pagar o preço de uma arquibancada para assistir o jogo de uma das janelas do andar superior de sua casa, de onde se podia observar todo o gramado. Mano hesitou – afinal o pai estava em casa, embora dormisse – mas, tentado pela possibilidade de usar a renda extra para adquirir uma bola de couro, acabou por concordar.

Após vender a primeira entrada, outros torcedores se apresentaram e, em poucos minutos, o segundo andar estava lotado. Foi preciso organizar a assistência: as janelas dos quartos eram as tribunas especiais, e custavam mil réis; as gerais eram o telhado do galinheiro, e custavam a metade do preço. Consta que a renda chegou a 25 mil réis! O estratagema funcionara com perfeição pois, severamente advertida, a torcida doméstica assistia em respeitoso silêncio aos 2 x 0 impostos pela equipe inglesa. Mano já sonhava com a aquisição do objeto dos seus sonhos, quando a seleção carioca cometeu a imprudência de marcar um gol. A torcida improvisada explodiu em aplausos, gritos e assovios. Tamanho alarido produziu o efeito inevitável: Coelho Netto acordou. Não sei se conseguem visualizar a cena presenciada pelo grande escritor: sua casa se transformara em um anexo do Fluminense Football Club, com incontáveis torcedores aboletados em suas janelas e vários outros em uma arquibancada improvisada, formada por cadeiras e um sofá. A cobrir o assoalho, um tapete de guimbas.

Diante do sumiço providencial de Mano, o jovem empreendedor, os presentes explicaram o modo como obtiveram acesso àquele cômodo e esclareceram não ter a mínima intenção de abandoná-lo. Em resumo, para a devida reintegração de posse do seu domicílio, Coelho Netto precisou contar com a ajuda da polícia, que organizou uma fila de retirada, na qual todos receberam seu dinheiro de volta. Assim, encerrou-se o precursor mais remoto da ‘farra de ingressos’, sem acarretar qualquer prejuízo para o clube ou os torcedores e sob a autoria intelectual de uma criança de 11 anos de idade.

Postado em 3. Mitologia Tricolor | 2 comentários

Ataque Aéreo

Tricolores,

Há alguns dias, em meio às notícias sobre a catástrofe ocorrida na Região Serrana do Rio de Janeiro, os jornais divulgaram que a Sra. Presidente da República, em visita ao Palácio Guanabara, fez uso do combalido gramado do Estádio Manuel Schwartz para pouso do seu helicóptero. Esse fato ocorre sempre que tal necessidade se apresenta e, naturalmente, envolve certa movimentação de seguranças, tropas uniformizadas etc. Cito o fato porque, por mais que conviva com meus amigos, parece inesgotável a possibilidade de ser surpreendido.

Após o comentário acima, tive a pretensão de mudar de assunto mas, de imediato, o Antonio Carlos resmungou: “Aviões e militares nas Laranjeiras… isso me traz péssimas recordações. Por que vocês acham que perdemos a hegemonia do futebol carioca em 42?”. Ele mesmo respondeu: “Perda de foco! Pura perda de foco. Lembram-se por que?”. Seguiu-se um prolongado e constrangedor silêncio. Enquanto o Antonio Carlos se impacientava com os disparates do Stanislaw – “O lançamento de Casablanca, com a beleza de Ingrid Bergman… O casamento de Dercy Gonçalves com Danilo Bastos… A troca do Réis pelo Cruzeiro…” – tentávamos imaginar que força poderosa teria tirado o foco daquele elenco arrasador. Nos seis campeonatos entre 1936 e 1941, ganhamos cinco títulos cariocas mas, em 42, chegamos apenas em terceiro lugar. “O fato mais relevante desse ano foi a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Mas, e nós com isso?” – pensei em voz alta. “E nós com isso? Pois foi esse o problema!”, irritou-se o Antonio Carlos com a minha ignorância.

Em agosto de 1942, após submarinos alemães torpedearem indefesos navios mercantes brasileiros, o Governo Vargas declarou guerra ao nazi-fascismo. Mesmo distante do continente europeu, o impacto da guerra foi inevitável, influenciando vários aspectos da vida nacional. Desde as marchinhas de carnaval – como Que passo é esse, Adolfo? (“Que passo é esse, Adolfo / Que dói a sola do pé / É o passo do gato, não é? / É o passo do rato, não é? / É o passo do ganso / Qué, qué, qué”) interpretada por Arací de Almeida -, até o futebol. No Campeonato de Santa Catarina, por exemplo, a decisão entre Avaí e América não se realizou, porque vários jogadores desse clube serviam ao Batalhão do Exército. O América tentou realizar o jogo em outra data, mas a Federação Catarinense declarou o Avaí campeão estadual.

No Rio de Janeiro, como contribuição ao esforço nacional, o Fluminense organizou um Tiro de Guerra, para a formação de reservistas para o Exército e criou um curso de enfermagem, em anexo à Seção de Serviços Médicos. Formaram-se oitenta e cinco enfermeiras, todas de famílias de sócios tricolores. Mas o fato cuja analogia despertou a preocupação do Antonio Carlos foi nosso engajamento na Campanha Nacional de Aviação, patrocinada pelos Diários Associados e destinada a ampliar o número de aviões de treinamento. Por meio de uma cotização entre os sócios, o Fluminense arrecadou a Cr$ 155.000,00 e adquiriu um monomotor, modelo Fairchild, que recebeu o nome de Coelho Netto. O batismo do avião se deu no dia 11 de outubro de 1942 quando, em meio a autoridades civis e militares, com as hélices envoltas na bandeira tricolor e sob intensa ovação da torcida, o Fluminense apresentou sua contribuição para a Força Aérea Brasileira.

Na mesma tarde e no mesmo local (estádio das Laranjeiras), o clube de regatas da Gávea disputou o Fla-Flu do terceiro turno, no qual o empate de 1×1 lhe garantiu o título de campeão. Dois eventos quase simultâneos, de natureza bem diversa, que demonstram em que estavam centradas as preocupações de cada um dos clubes. O desvio de foco foi trágico: negou o segundo tricampeonato a um time fabuloso e proporcionou ao adversário a arrancada para – só então – o primeiro tri de sua história.

Enquanto João Paulo, místico e supersticioso, batia várias vezes na madeira, o Angenor aparentemente impressionado com o Coelho Netto, murmurava: “Ataque aéreo… ataque aéreo”. Mas, não era bem isso. Tal como tem ocorrido, quase diariamente, desde o dia cinco de dezembro do ano passado, Angenor revivia a jogada de Carlinhos pela lateral esquerda, seguida do cruzamento pelo alto, o desvio de Washington e o gol decisivo de Emerson.
_________________________________________________________________________________________________
Este post é baseado em um texto do livro “Memórias Imortais, Glórias e Heróis da Mitologia Tricolor”, publicado por J.T. de Carvalho (Editora Corifeu, 2009).

Postado em 3. Mitologia Tricolor | 7 comentários

Adionson, o repórter

Tricolores,

Para atender a insistentes pedidos dele mesmo, nossa turma concordou em publicar uma imagem do Adionson, feita recentemente pelo artista gráfico Gustavo Mutran.

Apesar do carinho com que é tratado por todos, nosso irrequieto amigo insiste em afirmar que não o prestigiamos adequadamente. “O que seria de mim, se não fosse eu mesmo?”, ele se lamenta.
Para quem ainda não está familiarizado com sua irreverente personalidade, sugiro a leitura do post “Quem é Adionson?“.

Como podem notar, ele fez questão de posar com a rolleyflex que o Antonio Carlos lhe emprestou, e estava sem uso desde o tempo da Bossa Nova.
Aproveitou também para divulgar mais um de seus ‘furos jornalísticos’:

“Desde a surpreendente aposentadoria do Coração Valente – o nosso Washington Stecanela (canela?) -, tenho procurado reforços para o ataque tricolor.
Outro dia, recebi o video abaixo e me convenci de que essa contratação irá motivar nossa torcida a, literalmente, ‘chegar junto’. Também os patrocinadores ficarão entusiasmados com a belíssima exposição de suas marcas.
Os mais exigentes dirão que é coisa de pelada, mas e daí? Peço que analisem as imagens despidos de qualquer preconceito.
Contra ou a favor, deixem seus comentários.
Saudações Tricolores,
Adionson”

 

Postado em 2. O Grupo do J.T., Adionson, o repórter | 10 comentários